Os fundamentos das Constelaçõs Sistêmicas
As Constelações sistêmicas são uma forma para trabalhar com temas nos sistemas humanos. A sua primeira e mais frequente aplicação relaciona-se com temas no interior de nossas famílias ou que surgem nas nossas famílias (são as Constelações Familiares). A sua outra utilidade importante é em relação às organizações como empresas, clubes, escolas, etc. (são as Constelações Organizacionais).
Ainda que é possível fazer este trabalho em sessões individuais com o facilitador, normalmente faz-se com um grupo de pessoas sem relação entre elas. Os membros do grupo são escolhidos para representar os membros ou outros elementos da família ou a organização que se está a tratar. Neste processo revelam-se dinâmicas ocultas e inesperadas que operam no interior do sistema e são tratadas duma forma em que se procura encontrar um lugar são e respeitoso para todos os membros do sistema em questão.
Geralmente realizam várias destas Constelações com o mesmo grupo durante um workshop, que pode ter a duração de um a vários dias. Apesar dos participantes trabalharem num determinado momento na sua própria questão, participam noutro momento na procura de soluções para os outros membros do grupo que lhes permite desenvolver uma empatia mais profunda no que diz respeito a estas famílias e organizações, e ainda com uma perspectiva maior. Isto é em parte responsável por uma sensação mais profunda de compaixão e pertença que se gera entre os participantes do workshop.
Através deste processo, podemos ver e sentir a nossa força e vulnerabilidade partilhada com os membros da nossa família, com o resto da humanidade e, certamente, com o resto do planeta. Sentimos a complexa rede de inter-conexão que desde gerações passadas alcança o nosso presente, servindo de trampolim para o futuro. Agora é habitual encontrar livros e documentários que se referem a estas ideias de inter-conexão. Estão a aparecer em muitas áreas, incluindo o meio ambiente, a física quântica, psicologia e espiritualidade. É, no entanto, uma jóia muito especial que nos permite experimentar a inter-conexão de uma forma tão directa. A Constelação Sistêmica é uma destas raras jóias.
As Constelações Sistêmicas revelam e, até certo ponto, clarificam o funcionamento das forças nos sistemas vivos que, de certa forma, ainda são muito desafiantes de compreender e usar. Existem pistas destas mesmas forças na natureza, quando vemos os mistérios quotidianos, como o voo sincronizado de bandos de pássaros. (Sheldrake R. 2003) Se a coordenação estivesse baseada na percepção de os pássaros percepcionarem cada um dos outros, através dos seus sentidos, como nós os entendemos, então as suas mudanças de direcção dariam lugar a uma sucessão tombos, como um efeito de peças de dominó. Em vez disso, eles movem-se como se fosse um só, sem qualquer atraso. As Constelações Sistêmicas também assentam em modos de comunicação que ainda no compreendemos completamente. Isto permite que as dinâmicas de uma família sejam reveladas através dos representantes.
Intelectualmente podemos compreender temas sistêmicos complexos, como por exemplo, a morte de um bebe à nascença pode causar um sofrimento não resolvido nos pais e afectar a ligação à filha que vem depois. Então, o desenvolvimento desta filha pode ser seriamente afectado, ao ponto de interferir na sue próprio papel parental em relação aos sues próprios filhos. Quando o filho ou a filha desta mulher chega à terapia, é quase impossível tratar o efeito da morte do seu tio à nascença por meio de intervenções psico-terapêuticas clássicas. Numa situação como esta, é muito fácil que o terapeuta e o seu cliente ficar bloqueado pelo ressentimento duma mãe emocionalmente ausente.
No entanto, o processo da Constelação Sistêmica revela uma imagem simples e memorável da dinâmica e que permite ao cliente ter um olhar compassivo sobre a situação em conjunto. Esta imagem curativa permite-lhe deixar de tomar duma forma pessoal a ausência emocional da sua mãe. Então pode aceitar o presente da sua vida completamente, livre de ressentimentos que até então envenenaram a sua vida.
Tal como as forças naturais que se encontram por detrás da eletricidade que sempre estiveram presentes na natureza, tal como a força da gravidade mantém unidos os vários elementos do nosso universo, as forças que se revelam no processo da Constelação Sistémica, sempre nos acompanharam. O trabalho de uma linhagem de filósofos e terapeutas tornou-se gradualmente visível e ajudou-nos a compreender as forças misteriosas que ligam como grupos de seres humanos. Esta linhagem inclui Edmunde Husserl (1859-1938) , o pai da fenomenologia, Ivam Boszormenyi-Nagy (1920-2007) , pioneiro do pensamento transgeracional sistémico, Virginia Satir (1916-1988) , quem desenvolveu as esculturas familiares, precursoras das Constelações Sistêmicas e Salvador Minuchin o iniciador da terapia familiar estruturada.
Bert Hellinger(born 1925) tomou então, um papel de pivot ao observar as esculturas familiares de Virginia Satir e integrando com o método fenomenológico criou os primeiros protótipos das Constelações Sistémicas como as conhecemos agora. Depois continuou a desenvolver esta abordagem com o seu estilo pessoal.
Desde o ano de 1980, Bert Hellinger demonstrou esta abordagem a muitas pessoas como Jakob Schneider, Gunthard Weber, Hunter Beaumont e Albrecht Mahr que fizeram as suas próprias contribuições significativas, desenvolvendo depois, técnicas e compreensões nesta área. À medida que mais pessoas se envolvem, como Bernd Isert, aumenta a variedade de estilos e interpretações das Constelações Sistêmicas.
Assim, o processo de Constelações Sistêmicas não apareceu do nada. Há manifestações em culturas antigas, como por exemplo, na veneração dos antepassados na cultura chinesa, as tradições xamânicas, a cosmologia das primeiras nações, como seja, o tempo dos sonhos dos Aborígenes e o apelo dos Africanos à força dos seus ancestrais, só por nomear alguns.
Gostaria de dizer como as Constelações Familiares se desenvolveram e como continuam a se desenvolver, segundo a minha experiência. No início, as Constelações Familiares eram, no fundo, uma forma de Psicoterapia. Portanto, nós as oferecíamos no contexto da psicoterapia e para pessoas que procuravam psicoterapia. Frequentemente eram pessoas que estavam doentes de corpo e alma. As Constelações Familiares as ajudaram. A postura que tínhamos era a do treinamento psicoterápico, na qual tínhamos sido treinados e para o qual estávamos direcionados. No início, isso marcou muito as Constelações Familiares.
Qual era a postura? Era a idéia de que aqui está um cliente, um necessitado e ali um terapeuta, que foi treinado em determinados métodos e agora conhece as Constelações Familiares e as utiliza no sentido da Psicoterapia. E, na verdade, não era terapia individual, porque aqueles que se utilizavam das constelações já tinham ultrapassado esse momento. As Constelações Familiares se desenvolveram no contexto da Terapia Familiar. Como terapeutas, fizemos algo seguindo aquilo para o qual tínhamos sido treinados. E estávamos treinados a fazer algo. Constelávamos as famílias dessa forma também. Nós deixávamos que eles os constelassem; então interferíamos segundo as nossas idéias e também o que tínhamos aprendido sobre as ordens de relacionamentos e procurávamos uma solução. Primeiro olhávamos para o problema e então procurávamos a solução. Isso trouxe muita bênção.
Ir com a alma
Então ficou óbvio que os representantes são muito mais importantes do que imaginamos, no início. Revelou-se que eles estavam em contato direto com um campo maior e trouxeram algo à luz, simplesmente porque se deixavam levar pelos movimentos que os impulsionavam, por aquilo que ia além daquilo que no início descobrimos sobre as ordens do amor.
De repente fomos confrontados com situações totalmente diferentes e com outros movimentos. Portanto, deixamo-nos conduzir cada vez mais por esses movimentos, que contradisseram muitas vezes as nossas idéias.
Então alguns tentaram interrompê-los e, ao invés de esperar por aquilo que se mostrava, interferiam. Foi necessário um certo tempo até que vi –agora falo de mim – que se eu suporto que é necessário esperar e se me exponho ao que se mostra, chegamos a uma profundidade que vai muito além da psicoterapia. Aqui somos levados de repente a entrar em contato com poderes fatais, perante os quais falhamos.
De repente vemos, por exemplo, que alguém se sente atraído inexoravelmente para a morte. Ou alguém sente que precisa morrer. Com quais métodos que aprendemos na psicoterapia podemos, então, fazer algo aqui? Podemos realmente fazer algo? Ou aqui a ajuda chega a um limite onde o soltar se torna importante? E onde a ajuda real começa, quando deixamos de agir? Uma outra força assumiu aqui a liderança. Eu me deixo levar por essa força e, de repente, sei se devo fazer algo e o que devo fazer, mesmo se no início, algumas vezes, pareça ser absurdo. Mas eu vou com esse movimento e então resulta algo que nunca poderia ter previsto antes.
Portanto, isso vai além do contexto da terapia familiar e, por fim, da psicoterapia. Portanto o que começou com as Constelações Familiares tornou-se um ir com a alma. Qual alma? Não a própria, não a do cliente, não a do representante, mas uma alma que atua em todos da mesma maneira.
Se entrarmos em sintonia com essa alma, ficamos seguros. Nós permanecemos parados perante algo impalpável, e o impalpável fica de repente palpável no resultado.
Bert Hellinger, Ordens da Ajuda, Atman – Pgs 232/233